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Parashat Ekev - Devarim 7:12-11:25

Foto do escritor: Andrea KulikovskyAndrea Kulikovsky

Talvez por sua característica de ser uma retomada dos passos dos israelitas, através das lentes de Moshé, as parashot de Devarim são riquíssimas de assuntos. Ekev não sai desta característica: traz o segundo parágrafo do shemá, fala sobre fertilidade, sobre recompensa e castigo, sobre a proibição de idolatria, sobre cumprir mitsvót, sobre proteger os fagilizados, sobre a circuncisão do coração – uma das expressões mais poéticas da Torá, que eu adoro.


Ekev fala muito da relação do humano com a alimentação, com a comida. Fala da terra fértil, fala do maná, das espécies de Israel, e da obrigação por agradecer a Deus pela comida que temos.


וְאָכַלְתָּ֖ וְשָׂבָ֑עְתָּ וּבֵֽרַכְתָּ֙

Comer, se saciar e agradecer.


O comentarista francês do século XIII, Chizkuni, explica que “este versículo é aquele do qual os sábios derivaram as três primeiras bênçãos na oração conhecida como Birkat haMazon ברכת המזון, a prece de graça após as refeições.”[i].


Desde pequena eu conheço o Birkat haMazon, um dos momentos mais festivos da Colônia da CIP, que eu frequentava durante as férias. Entendia que era algo daquele lugar e dos jantares de Pessach de minha família, mas que não faz parte de nosso costume atual rezar antes ou após a refeição. Por outro lado, sempre vi com admiração, respeito, e até uma pitada de inveja o enraizado costume americano de “say grace” antes das refeições, que aparece em diversos filmes. Então, desta vez, ao ler a frase “Você comerá, e ficará satisfeito, e agradecerá ao Senhor teu Deus pela boa terra que te deu”[ii]me levei então a pensar nas tantas tradições judaicas que foram apropriadas por outras culturas, e nós, judeus, simplesmente deixamos de praticar, passando a enxerga-las como parte de outra cultura, e não a nossa.


É interessante que, em Ekev, a experiência de comer e se fartar é ligada à terra de Israel, onde o povo encontrará “cevada, uvas, figos e romãs, uma terra de oliveiras e mel”[iii], porque durante a travessia no deserto a alimentação é justa, aflitiva, provida por Deus, através do maná (man em hebraico). A acadêmica Ilana Kurshan ressalta que “a experiência de comer maná não se tratava apenas de aflição, mas também de fé. Visto que o maná não podia ser armazenado, as pessoas tinham que ter fé que Deus faria chover novo maná todos os dias.”[iv]


Há também um estranho paralelo entre a vida no Gan Eden e a vida no deserto, ambos lugares onde Deus provinha o sustento; a diferença reside na abundância do Gan Eden e a aflição do deserto. Por outro lado, tanto ao sair do Gan Eden, quanto ao sair do deserto, passamos a ter que trabalhar a terra para dela tirar sustento. Mas, se na saída do Gan Eden isto era um castigo, na conquista da Terra Prometida este é um fato a ser celebrado: somos donos de nosso chão, plantamos, colhemos e comemos com fartura. E se aprendemos algo do tempo do deserto, agradecemos!


No Talmud encontramos várias referências à importância da alimentação: Rabbi Avdini disse “Antes de uma pessoa comer e beber, ela tem dois corações, mas depois que ela come e bebe ela tem apenas um coração”[v], dando a ideia de que a fome tira o foco das pessoas; já Rabbi Meir disse “Triture alimentos com os dentes e você encontrará nos pés a força para carregar o seu corpo”[vi].


Enquanto em nossa parashá a comida serve como aflição ou tranquilidade, e se baseia em nossa relação com Deus, no Talmud ela serve como força e sustento. Com o passar do tempo, a relação com a comida passou a ser mais prática do que espiritual, e assim foi através dos tempos. Mas, como lemos na parashá, “o homem não vive só de pão”[vii], num indicativo de que precisamos alimentar corpo e alma. Então, em 1986 surgiu na Itália o movimento Slow Food, reclamando a relação espiritual com a comida, diante da conquista mundial das redes de Fast Food. O documento fundante do movimento falava da necessidade de um outro modo de se relacionar com o alimento, uma relação de prazer. “A comida envolve muitas dimensões da vida, é um dos elementos principais que moldam nossa identidade e nossas relações com o mundo. A comida é conexão com o território e a natureza. Ela é memória e afeto, é história e patrimônio; permeia todas as culturas e muitos rituais”.[viii] Assim também é no judaísmo nos chaguim e nos Shabatot.


Proponho hoje um desafio: que voltemos às nossas origens e busquemos uma relação diferente com a alimentação, com a refeição diária. Busquemos o ritual do comer, sejamos capazes de ver a bênção que é nos sentar à mesa e comer livremente uma boa comida, com ou sem companhia de outras pessoas. Vamos olhar para nossas mesas e enxergar muito mais que pão, mas amor, acalento, espiritualidade. E então, que possamos tornar nossas refeições sagradas com as brachot que encontrarmos em nossos corações.


Shabat Shalom.



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